segunda-feira, 25 de junho de 2012

MORREU SEM QUE EU PUDESSE ME DESPEDIR



Hoje tenho que fazer o mais difícil, falar de alguém que gosto muito que morreu violentamente sem que ninguém pudesse se despedir.

Recebi a notícia da sua morte ontem por volta das 06:00 am, fiquei sem chão.

Minhas pernas tremiam, meu coração disparou, senti ânsia de vômito, e fiquei paralisada, foi como se o mundo tivesse parado por alguns instantes.

No segundo momento comecei a lembrar momentos que passamos juntos, eu podia ouvir sua voz, ele era tão alegre!

No terceiro momento chorei muito, muito mesmo.

No quarto momento me revoltei com a vida, comecei a pensar em como a vida é sem sentido, não entendia porque alguém tão novo, uma pessoa boa, alegre, solidária, meu amigo, porque??

No quinto momento comecei a pensar na família dele, esposa, mãe, filha, irmãos, como devem estar sofrendo...

No sexto momento comecei a rezar por ele, pedir pela sua alma, e para que Deus desse força para a família!

Durante todo o dia fiquei no cemitério velando seu corpo e dando apoio a família, e todos esses momentos se misturavam, hora me sentia paralisada, como quem assistia a um filme, hora me sentia revoltada, hora as lembranças viam e eu chorava, hora começava a rezar...

Hoje estou mal, minha cabeça dói muito, sinto uma profunda tristeza, e busco explicação para tudo.

A esposa dele me disse algo que não vou esquecer jamais, "pedi a noite inteira para vê-lo, pois eu gostaria muito de me despedir".

Não estou conseguindo expressar o que sinto, mas li um texto do Pedro Bial que fala sobre esse sentimento de revolta que estou sentindo pela vida não ter deixado que ele se despedisse.


A morte, por si só, é uma piada pronta.
Morrer é ridículo.
Você combinou de jantar com a namorada,
está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem,
precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no
carro e no meio da tarde morre. Como assim?
E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente?
Não sei de onde tiraram esta idéia:
MORRER!!!
A troco? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio
estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve
lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física,
quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para
estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer
da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora
de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente...
De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway,
numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis.
Qual é?
Morrer é um chiste.
Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém,
sem ter dançado com a garota mais linda,
sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida.
Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e
penduradas também algumas contas.
Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas,
a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira.
Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu.
Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce,
caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina,
começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer.
Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte
costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã.
Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o
sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não
acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase
nada guardado nas gavetas.
Ok, hora de descansar em paz.
Mas antes de viver tudo? Morrer cedo é uma transgressão,
desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero.
E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.
Por isso viva tudo que há para viver.
Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da Vida... Perdoe... Sempre!!!
Pedro Bial

“As lágrimas mais cruéis derramadas sobre o caixão são pelas palavras que nunca foram ditas e pelos actos que se deviam ter praticado e não o fizemos, apenas porque pensamos que a partida, a última não vai ser hoje e ainda há tempo. Mas ele esgota-se e foge-nos como areia por entre os dedos”.